terça-feira, 20 de maio de 2014



ROUPAS AO VENTO

Ela era linda com seus olhos negros e me inspirava um sentimento muito terno.
Joana D’Arc chorava durante o sono e aquilo me impressionava.
Ela sempre me dizia que tinha uma aspiração na vida. Dizia que almejava uma vida ao lado de um bom companheiro e desejava ter uma casa com um varal repleto de roupas se balançando. Sonhava com roupas coloridas ao vento...

Muitas vezes nós nos debruçávamos na janela para observar a rua e eu notava que seus olhos se estendiam para o horizonte. Parecia-me sempre que ela estava buscando alguma coisa bem distante.

Numa tarde estávamos na janela e ela começou a me contar sua história.
Fiquei ouvindo e confesso que não sabia se chorava, se a abraçava. Ou se me calava.
Aos 20 anos não temos muita compreensão do mundo.
Hoje em dia eu me pergunto se fiz a coisa certa, mas creio que sim.
Já houve tempo em que pensei que deveria ter ficado caladinha ouvindo-a e que era só isso que ela desejava: desabafar.

Eu a consolava abraçando-a e sentia que ela gostava muito de meus abraços.
Bem, acredito que fiz a coisa certa. Fui muito carinhosa com aquela garota e ela era extremamente carente.
Joana raramente sorria e eu sempre fora uma garota sorridente. Eu lhe passava uma ideia positiva e colorida do mundo.
Dividíamos um quarto de pensão. Na verdade éramos quatro jovens dividindo aquele diminuto espaço. Isto aconteceu nos ano 70.

Naquela época dizíamos ainda “São Paulo da Garoa”. Houve uma mudança climática e a capital paulista já não tem esta característica. Há uma explicação cientifica para isso.
São Paulo já foi chamada de terra da garoa, quando durante o outono, a cidade passava dias com uma garoa fina. Atualmente, o concreto absorveu muito da sua umidade. Além disso, a poluição ajudou a aquecer a cidade, fenômeno comum em várias regiões do planeta graças ao que os cientistas chamam de aquecimento global. Além disso, essa mesma poluição cria novos fenômenos climáticos como a inversão térmica, que aumenta a sensação térmica de frio na cidade nos dias secos.

Bem, ficávamos na janela observando os transeuntes agasalhados. Ficávamos olhando a rua; olhando a vida que parecia passar tão lentamente. Aquela garoinha dava-nos a impressão que estávamos na Europa e comentávamos isso.
Éramos tão jovens, Meu Deus! E já tínhamos passado por coisas duras. Cada uma à sua maneira.
Eu tivera problemas sérios de saúde e Joana tinha conhecido a dor de ser criada em um abrigo para crianças, o desgosto de ter perdido a família inteira.
Ela estava com 19 anos e havia saído do abrigo há pouco tempo.
Contou-me que ficara irremediavelmente marcada pela vida. Aos 9 anos sua mãe faleceu e outra tragédia aconteceu naquele dia, pois o seu pai, enquanto se encaminhava para o hospital, foi atropelado. Os dois morreram no mesmo dia e deixaram os 9 filhos.
Cada um foi para um lado e ela foi entregue ao juizado de menores.

Chorando ela me contou como sentiu muito a falta dos irmãos e dos pais. E me falou que era com grande ansiedade que aguardava as visitas, na esperança que alguma família a adotasse, mas não aconteceu e os anos passaram.

Aos 18 anos conseguiu empregar-se e estava ali morando conosco.
Imagino como deve ter sido difícil para aquela jovenzinha ter sido criada num lugar como aquele. Justamente ela que tivera uma família tão grande.

Muitas vezes lhe ofereci refeições porque a Joana mal conseguia se sustentar com o salário que recebia. Lembro que ela adorava arroz e comia-o mesmo sem acompanhamento.
Eu sempre fui de comer pouco e de beliscar petiscos. Jamais conseguira comer uma panela de arroz e admirava-a enquanto ela comia.
A Jô (era assim que eu a chamava) ficava muito agradecida porque sempre eu lhe deixava grande parte da minha refeição visto que eu era de comer muito pouco.

Logo me casei e ela costumava me visitar, até que voltei a morar no interior e ficamos por 20 vinte anos nos correspondendo através de cartas e raros telefonemas. Sempre a incentivei muito a procurar os irmãos e ela o fez. Contou-me que encontrou 4 deles. Inclusive uma das mulheres morava bem pertinho do bairro onde ela estava residindo com a sua família.
Contava-me das filhas, enviava fotografias (inclusive quando eram pequeninas e quando já estavam ficando mocinhas) e eu as guardo até hoje.
Como vou me esquecer de uma jovem que me dizia que seu sonho era ter um varal e roupas ao vento?
Senti grande tristeza quando perdemos o contato.  Talvez eu esteja errada em pensar que nos desencontramos porque esta é uma expressão errônea. Nós nos encontramos quando tínhamos que nos encontrar e nos falamos enquanto havia o que conversar.

Por que resolvi escrever esta crônica? Porque guardo a Joana em mim e porque ela me falou um dia: Soninha, você não sabe o que é o egoísmo. Vive repartindo o pouco que tem comigo.
Eu dividia com ela porque era o melhor que eu tinha a fazer e dava-me uma sensação tão boa. Não questionava se era um gesto de altruísmo. Nem pensava nestas coisas naquele tempo. Eu simplesmente dividia o que tinha.
Hoje em dia eu penso que era tão pouco o que eu dava à minha amiga. Tão pouco e para ela significava tanto.
O mesmo significado deveria ter para ela as roupas ao vento se balançando porque necessitava disso. Necessitava desta sensação de aconchego. E sem conhecer a vida eu lhe entreguei isso: uma amizade aconchegante.
Querida Joana D’Arc, onde você estiver, receba o meu abraço bem apertado. 


sonia delsin


NASCEU?

Em meu trabalho costumo me relacionar com muitas pessoas. Estou quase todo o tempo recebendo clientes, vendedores. Algumas pessoas acabam passando por lá só para jogar um pouco de conversa fora.
É um estabelecimento aberto ao público. O lugar é agradável e as pessoas gostam de estar num lugar assim.
Acabo fazendo amizades e eles acabam me contando de seus problemas, de suas vidas.
Muitas pessoas gostam de conversar, ainda mais quando nos dispomos a ouvir.
Dia destes aconteceu um fato bem engraçado.
Um senhor chegou e estendeu a mão perguntando-me:
─ Tudo bem?
Olhei-o toda sorridente e perguntei:
─ Nasceu?
Ele soltou a mão da minha e a passou pelo abdome me falando:
─ Eu me perdi a barriga sim, mas eu não estava grávido.
E caiu na gargalhada.
Fiquei vermelha até a raiz dos cabelos.
A pergunta foi para a pessoa errada. Confundi um vendedor com um cliente que estava prestes a ser papai.
Tentei me justificar.
Ele riu muito e me disse que as pessoas costumam confundi-lo com outros. Disse que deve ter um rosto muito popular.
Meu filho que estava próximo não deixou de me falar:
─ Mãe, você navega na maionese.
Puxa! Mas o cara era parecido com o outro. Era sim.
Hoje a sogra do verdadeiro “papai” passou por lá e eu comentei o fato perguntando pela filha, se o neném já tinha nascido.
Ela me disse que ainda não nasceu e morreu de rir.
Ela ainda me falou:
─ Mas você foi logo perguntando se nasceu sem mais nem menos...
Disse que sim. Que não tive tempo para pensar. Confundi os dois e deu nisso. Disse que preciso ser mais cuidadosa da próxima vez.

sonia delsin


PEQUENA CAMPONESA

Tenho diante de mim um retrato de uma linda menina vestida de camponesa.
Ganhei a foto e porta-retrato no Natal.
Foi um belo presente, para guardar pra toda vida.
A garotinha é Tainá, minha afilhada.
Ela veste um lindo vestido cor-de-rosa, todo cheio de babados.
Traz na cabecinha um chapéu bem camponês e nos bracinhos um lindo buquê de flores do campo... claro!
Como ela é linda, com seus olhos azuis esverdeados ou verdes azulados. Tem uma aparência tão frágil, tão suave.
Os lábios são carnudos e sorriem um sorriso tão doce que me leva a beijar o retrato.
O nariz não é arrebitadinho, mas é tão bem feitinho!
O rostinho é um primor!
Eu lhe tenho tanto amor!
Olhando-a eu penso que tem um não sei quê que sempre me emociona.
Sinto uma saudade apertando o peito, uma vontade de estreitá-la em meus braços.
Abraço o porta-retrato, e tento imaginá-la à minha frente. Chego a ouvir a sua vozinha, a ver a carinha que costuma fazer diante das situações inesperadas.
A ternura invade tudo e vaza de mim. Verto lágrimas... são lágrimas de amor.
Amor por uma criança que num outro canto da cidade brinca na inocência de seus três aninhos.


(dez anos se passaram desde quando escrevi este textinho. Ela está ficando uma mocinha e continua linda)

sonia delsin


MELODRAMA

¾ Não precisa dramatizar.
É o que sempre me disseram: meus pais, irmãos, amigos, meus filhos e você.
Mas como não fazer drama, se é disso que sou feita?
Estou sempre construindo histórias na minha cabecinha de vento.
Tantas vezes sou obrigada a viver a realidade dura, assumir meu eu carnal.
Amo meu eu, este Eu profundo que existe dentro de mim, sei que ele faz parte do cosmos. Mas o material não significa muito, nem me importo em enfeitá-lo porque a beleza física não é o fundamental para mim.
As coisas da Terra não têm a importância que tantos lhe dão. Importo-me mais com coisas muito maiores, mais profundas.
Vivo a conjeturar, vivo no mundo dos sonhos porque sinto que escapei dele para ter que viver aqui.
Sinto que sou a prisioneira de meus próprios sonhos. Vivo de idéias e fantasias e quando assumo meu lado prático sofro por não poder modificar as coisas.
Não aceito e nem assumo meu eu material, sinto-me castigada por ele.
Sinto que preciso vivê-lo e através dele aprender lições de vida, então dou-me por rogada; vivo o eu carnal que se sobranceia ao meu eu espiritual.
Mas existem minhas fugas e meus devaneios e minha mania de dramatizar, de colorir demasiadamente, de antepor, de sobressair. Não posso ser só a dona de casa eficiente se dentro de mim mora uma alma enorme que adora viajar pelo espaço sideral.


sonia delsin


NEGRO GATO, SEBASTIAN

Sebastian é um lindíssimo gato negro.
Parece-se mais com uma pantera negra.
Vive deitado nas almofadas e nas cadeiras da sala de jantar. Também gosta de pendurar-se na toalha da mesa.
Parece ser o dono da casa.
É todo imponente ele! Tem um ar tão arrogante!
A dona não se importa que ele transite à vontade pelos cômodos todos e ele aproveita-se disso.
Vive brigando com a gata siamesa e já o vi dando-lhe umas belas patadas. É que sente ciúmes da dona dele. Não quer repartir carinhos.
Acho engraçado quando ele fica empoleirado no sofá balançando o rabo.
Ah! Esqueci de contar que o pelo dele é deliciosamente macio. 
Gosto dele e nem fico assustada quando ele me lança seu olhar felino.

(tantos anos depois o reencontro. Está envelhecendo o Sebastian e a gata já morreu – o tempo traz tantas mudanças)

sonia delsin


UMA ETERNA APAIXONADA

Era o vento açoitando as folhas e na minha imaginação eram fantasmas...
Assustadoras figuras que eu pressentia entre as bananeiras.
Figuras que povoavam minha mente fantasiosa.
Cresci assim... no meio do mato.
Ouvindo a música da cachoeira, perseguindo borboletas, cigarras, fuçando nos ninhos.
Atravessando pinguelas, admirando a transformação do grão.
Meu moinho de milho que o tempo não destrói não.
Ouvia o balir das cabras. O coaxar dos sapos e rãs... os pássaros a cantar.
Criançada a correr, a pular, a brincar...
Eu era uma delas... uma das mais traquinas.
Era a nona que resmungava ou tossia quase todo o tempo.
E as estórias que mamãe contava!
Meus gatos, os porcos, meus castelos de sabugos.
O rancho onde construí tantos sonhos.
E as jabuticabeiras floridas... carregadas de frutinhas maduras...que tentação!
Não me fartar era uma judiação.
O que posso falar de minha terra amada?
Que por ela sou uma eterna apaixonada.
Que a guardo n’alma, no melhor canto.
Que a menina é eterna em mim e viaja para todos os recantos guardados.
Quando se tem uma lembrança destas a vida fica mais fácil. É doce correr pra lá... quando tudo está ruim pra cá...

sonia delsin


À SOMBRA DA JABUTICABEIRA

As jabuticabeiras da minha infância.
Como me lembro delas!
Minhas narinas estão impregnadas do perfume de suas flores.
Cresci feito moleque travesso subindo nas árvores.
As frutas tão docinhas, as dos ponteiros não eram um desafio.
Não, para mim.
Eu ia tranquilamente buscá-las.
Era deitada à sua sombra, jabuticabeira antiga.
Era a sua sombra que eu gostava de me sentar.
Encostada no seu tronco eu sonhava.
Minha alma solta passeava pelo futuro incerto.
Hoje estou no futuro tão esperado.
E que saudade eu tenho daquele tempo!
Como eu sonhava sonhos dourados.
Fazia e refazia os meus castelos encantados.
A realidade foi tão diferente.
Ainda sonho. Timidamente mas sonho.
Não com aquele desprendimento da minha infância.
Mas ainda sonho...

São Carlos, 14 de agosto de 1994

sonia delsin


A CHUVA E O BEIJA-FLOR

Só depois de termos tido uma estiagem de vários meses é que valorizamos essa dádiva dos céus.
Eu assistia aos primeiros pingos caindo sobre o meu jardim.
Totalmente agradecida e compenetrada quando avistei o lindo beija-flor se esponjando num galho da minha espirradeira florida.
Ele é meu hóspede.
Ele uma avezinha livre, pertence à natureza, mas frequenta assiduamente o meu pequeno jardim.
Pequeno colibri que ama a liberdade. Sua natureza seria selvagem, mas, talvez pela frequência aqui, se tornou dócil e não foge quando me aproximo.
Eu o chamo de meu beija-flor e já me acostumei com ele.
Como deve estar amando esta chuva leve!
Parece que ele está agradecendo a chuva. Parece... E eu agradeço ambos. A chuva é maravilhosa, necessária e meu colibrizinho traz alegria ao meu coração.


São Carlos, 30 de setembro de 1994

sonia delsin


BURGUÊS

Não vou generalizar porque toda regra tem uma exceção, mas quantos homens sentem nojo do próximo porque é pobre.
Cheira mal, passa fome e anda seminu.
Eles avançam nos sinais desrespeitando pedestres.
Porque seus carrões são luxuosos.
E o pedestre pode ser um  “trombadinha”.
Eles olham as pessoas com ar superior.
Desconfiam dos empregados.
Sentem alergia da pobreza.
Da miséria.
Eles julgam-se superiores. Muito superiores.
Porque tem os bolsos cheios, contas bancárias gordas.
Moram em mansões.
Têm carros, lanchas, iates, aviões.
Tem tudo o que o dinheiro possa comprar.
Materialmente são os maiorais.
São burgueses.

São Carlos, 13 de fevereiro de 1996

sonia delsin


QUEM ME DERA!

Quem me dera eu fosse capaz de contar tudo que sinto e de alguma forma passar para as pessoas as minhas experiências, frustrações e alegrias.
Queria contar de coisas sabidas, mas de tal forma descritas que fosse capaz de fazer o descrente crer.
O aflito tranquilizar-se, o infeliz sorrir de alegria, o pobre sentir-se rico por ter a vida a desfrutar.
Mas pobre de mim que nem sei como dizer a alguém:
-- Veja como é linda a vida!
-- Que imensidão existe! Não seja triste!
Encontrei Deus no lugar em que menos esperava encontrá-lo. Encontrei Deus no âmago do meu ser.
E queria dizer a todos.
-- Não procure Deus no céu, nos templos. Deus está tão próximo de você. Ele está no íntimo de cada ser.
-- Não se sinta só porque Deus jamais abandona seus seres. Mesmo quando eles nem de longe se lembram dele.
Ah! Se eu pudesse diria a todos que Deus nos ama tanto. Mas tanto que nos faz nascer livres para traçarmos o nosso próprio destino.
Nós mesmos é que temos que encontrar o caminho que nos leva até Ele.

São Carlos, 10 de março de 1994

sonia delsin


TAPETE  FÚNEBRE

Olho a rua molhada.
As poças d’água nas calçadas.
Olho a chuva que cai.
O vento balança uma árvore coberta de flores roxas.
As flores caem lentamente.
O vento bate mais forte e o chão se cobre de roxo.
De pétalas roxas.
Parece um tapete. Um tapete fúnebre.
Porque o roxo sempre me lembra a morte.
Mais forte agora a enxurrada carrega as flores.
O tapete se desfaz.
A chuva aumenta, os trovões e os relâmpagos tornam-se assustadores.
A chuva cai e vai molhando tudo. Sinto-me completamente umedecida.
Chove dentro de mim um pranto leve, suave.
Talvez seja a melancolia de assistir a chuva cair. Ou talvez a nudez da árvore é que me espeta a sensibilidade.
Abro meus olhos parados, esquecidos. Olhos que olham ser ver.
Já não chove.
Um sol ardente brilha. A natureza logo se esquece que choveu.
Só eu estou aqui a lamentar pela árvore que perdeu suas flores.
Então me pergunto se as pétalas roxas foram formar outro tapete...

São Paulo, 16 de março de 1976

sonia delsin


ODE A UMA CIDADE

Não nasci aqui, nem foi aqui que me criei.
Mas é aqui que os meus filhos estão crescendo.
Aprendi a amar cada rua, cada praça, cada árvore.
A saudade da minha terra, às vezes, era tanta que eu procurava me agarrar a esta para esquecer aquela.
E consegui aos poucos substituir nos meus pensamentos os fantasmas do passado pela realidade daqui.
E já começo a fazer desta a minha cidade.
Aprendi a amar a brisa leve e o vento forte que contrastam o nosso clima.
Aprendi a amar os transeuntes que passam.
São desconhecidos em sua maior parte. São anônimos.
Mas são seres que compartilham do mesmo ar, da mesma chuva, do mesmo luar.
Não podemos viver de saudades.
Precisamos amar o que nos rodeia e agradecer a Deus por tudo que temos.
São Carlos, agradeço a acolhida.

São Carlos, 30 de setembro de 1994

sonia delsin


OUTROS CARNAVAIS

São lembranças de outros tempos.
Estão adormecidas num coração que aprendeu a sofrer.
E num coração que já foi tão feliz.
Lembranças de um tempo em que a preocupação maior era o sonho.
Lembranças de um tempo em que não havia mais a possibilidade de sonhar.
Lembranças da esperança voltando como Fênix voltando das cinzas.
Lembranças de uma linda história de amor.
Lembranças de um dia que foi o mais feliz.
E outros tão igualmente felizes.
Os momentos morreram no ontem, anteontem, no tempo...
...mas voltam a qualquer instante.
Basta querer trazê-los de volta, que eles voltam.
E basta querer esquecê-los que eles se vão.
Eles vão e voltam.
Mas já não conseguem ser reais, já não conseguem nos fazer sofrer.
E as lembranças boas têm o dom de nos proporcionar paz.
São lembranças novas e antigas.
São de outros tempos, outros carnavais...

São Carlos, 22 de janeiro de 1995

sonia delsin


RECORDANDO

Ainda consigo sentir o perfume das jabuticabeiras floridas.
Aquele cheiro de mato da minha terra jamais deixou de estar impregnado em meu ser.
Consigo ainda ouvir o barulho do córrego, o vento nos bambuzais...
Quanto tempo faz que eu corria por aquelas terras feito bicho livre.
Sem medo da vida. Querendo tanto ser feliz.
Vivia sonhando com outras terras, outra vida.
Fecho os olhos e vejo a casa simples, o paiol, a bica d’água. O moinho.
Quantos pequenos detalhes que teimam em permanecer intactos na memória.
Moram no passado. Contam a minha história.
O melhor da minha vida ficou lá, na chácara. Minha infância tão pura e doce.
Hoje, quando revejo aquele recanto onde nasci e vivi minha infância, não consigo encontrar nada do que me ficou na lembrança.
Parece outra terra.
É triste.
Nela já não correm crianças. Já não há uma mulher que trabalha cantarolando. Não há um homem assobiando a música “Silêncio”. Não há uma velhinha tossindo sem parar.
O moinho está silencioso, esquecido. Em ruínas. A velha roda enferrujada.
Já não existe o jardim florido, nem as cabras, nem a bica...
Agora aquela terra conta outra história e eu não faço parte dela.
A minha ficou guardada como a recordação mais terna que alguém pode ter.

São Carlos, 11 de agosto de 1995


sonia delsin


UM FATO INCOMUM

Neste final de ano estávamos (meu filho caçula, meu sobrinho e eu), passando uns dias na casa de minha mãe na cidadezinha em que nasci.
Dias muito agradáveis por sinal passamos porque aquele é um canto de paz neste mundo.
Num entardecer aconteceu um fato incomum.
Já escurecia. Eu lia uma revista sentada na varanda e meu filho se sentou próximo a mim. Ele trazia o violão e cantava baixinho uma canção. O meu sobrinho também se juntou a nós e o acompanhava no canto quando um pássaro começou a cantar.
Os meninos empolgados cantavam. Suas vozes juvenis enchiam aquele final de tarde e o som do violão era muito bom de se ouvir.
Já escurecia e o pássaro permaneceu no fio a cantar. Uma melodia suave. Deliciosamente suave.
Nunca vi cena igual. Um pássaro a cantar naquele horário em que eles costumam se recolhem para se abrigar.
Os dois continuaram e a ave parecia acompanhá-los.
Eu não despregava os olhos de seu corpinho, de seu biquinho que se abria,
Isto durou um tempo. Por fim ele voou. Os meninos também se afastaram e fiquei olhando o vazio da noite que chegava invadindo meu mundo.

Meu canto de paz permanecia.

sonia delsin


ONDE ESTÁ A CRIANÇA QUE EU  FUI?

Ser criança é acreditar, é confiar. É viver num mundo largo e encantado.
É construir castelos de areia, é sonhar com o mundo misterioso dos adultos.
Existe uma ponte ligando a infância à mocidade.
Acredito que à medida que caminhamos por ela encontramos uma série de fatores.
Fatores que irão influir em nossa personalidade futura.
A bagagem moral que se leva da infância pelos caminhos do mundo é de grande importância.
Quase todos os seres humanos se decepcionam quando alcançam a idade adulta.
Os anos passam, os ponteiros continuam implacavelmente a caminhar.
O sol nasce, vem a noite; outro dia, mais outro.
Uma infinidade de outros...
... e aí nos perguntamos um dia:
-- “Onde está a criança que eu fui?”
Se pudéssemos compreender naquela época como a vida é perderíamos a espontaneidade, a naturalidade.
Seríamos crianças hipócritas.
Deixaríamos de ser a própria criança. Cabeça de vento e alma de anjo.


São Paulo, 28 de maio de 1976

sonia delsin


VISITANDO RECANTOS DE MINHA TERRA

Bem cedinho, minha mãe e eu saímos para caminhar. Isto aconteceu no dia vinte de sete de dezembro de dois mil e quatro.
Todos estavam dormindo e saímos somente nós duas.
Conversávamos e admirávamos as belezas que nos rodeavam.
Sou privilegiada. Nasci numa terra maravilhosa, tenho uma mãe encantadora e posso me dar ao luxo de estar sempre passeando pelos lugares que amo.
Como um dos pontos turísticos de minha terra não fica tão distante de casa resolvemos caminhar até lá.
Minha mãe é uma fortaleza e nada parece amedrontá-la. Vejo-a tão corajosa e sinto tanto orgulho.
Logo após a morte de meu pai ela sofreu um infarto do miocárdio e recuperou-se totalmente.
Está sempre sorridente, cuidando de suas plantas, de sua linda casa.
Fomos conversando e rindo até a cachoeira denominada “Três quedas” e com a máquina fotográfica ela foi registrando tudo, pois fotografar é uma de suas paixões.
Não é qualquer pessoa que tem a disposição para caminhar até aquele local, mas ela tem disposição de sobra.
Ia olhando tudo e me sentindo renovada, aspirava o cheiro de mato, sentia a beleza e a guardava n’alma. Cada momento vivido significando tanto.
As lembranças se misturando ao presente e ia deixando meu ser se deliciando.
No caminho de volta encontrei mangas maduras à beira da estrada e apanhei algumas.
As coisas de nossa terra têm um sabor inigualável. Nossa terra parece que tem um luar de prata que em nenhum lugar do mundo tem igual.
A brisa que soprou em meus cabelos neste final de ano me fez uma nova mulher.

Agora vou seguir os passos de minha doce mãezinha. Vou encarar os problemas de frente e seguir a minha estrada.

sonia delsin 


CIDADE DE PEDRA

Quando me fecho no quarto em que moro sinto o perfume dos campos floridos.
Como sinto ainda em meu corpo a chuva leve que lavava minha alma dos conflitos
Recordo os banhos frios nos riachos límpidos...
As minhas longas caminhadas nos bosques, o canto dos pássaros.
As fontes escondidas entre samambaias, onde eu saciava a sede depois de tanto andar.
Eu olhava ao meu redor e só via árvores, em cujos galhos os pequenos cantores faziam seus ninhos, sem temer que os destruíssem.
A maldade dos homens não chegava àquele lugar esquecido do mundo.
Eu abria os braços e rodopiava feliz, livre.
O vento no meu rosto, o barulhinho suave das águas cantando nas pedras.
Eu era uma parte deste mundo, era como aqueles animais selvagens que temem a aproximação dos seres humanos.
Agora estou entre quatro paredes, e sinceramente desconheço se foi a civilização que chegou até o meu mundo perdido, ou se fui eu que cheguei até esta cidade de cimento-armado.
Não posso abrir meus braços e rodopiar, porque este mundo é muito estreito...
... e eu posso jogar meu corpo contra esta cidade de pedra.


São Paulo, 14 de maio de 1977

sonia delsin


ADEUS 1998

Cada minuto que passa hoje é um adeus.
Adeus ao ano velho.
Um ano que foi cheio de realizações e sucesso.
Um ano em que fomos tão felizes.
Obrigada meu Deus por este ano que morre aos poucos!
Obrigada por todos os momentos alegres que tivemos neste ano e também pelas dificuldades que nos fizeram aprender mais. Que nos fizeram crescer ainda mais como ser humano.
Senhor, a contagem do tempo é nossa. É simbólica.
Mas é a maneira que encontramos para viver aqui na terra. Precisávamos do tempo para que a nossa vida tivesse algum sentido e neste final de século temos vivido de uma forma que parece que ele passa rápido demais.
Parece que corremos em busca de algo.
Como seriam os nossos ancestrais? Não teriam na certa as preocupações que temos.
Eram mais felizes?
Quem sabe!
Mas é a nossa maneira de viver e hoje se completa mais um ciclo para nós.
O término de um ano significa barreiras transpostas e esperanças novas para um novo tempo que começaremos a contar a partir de amanhã.
Ilusões! Quem sabe?!
O que somos nós senão seres iludidos?
O ano de 1999 será cheio de glórias e prosperidade. Será um ano melhor ainda que 1998. Precisamos crer nisso para que nossa vida tenha uma razão de ser.
Então viva 99 que nos chega! Adeus 98 que está morrendo lentamente!
Sejamos felizes!

É a nossa missão aqui. Darmos o melhor de nós mesmos. Acreditarmos em coisas melhores. Sermos o melhor que pudermos ser.

sonia delsin