segunda-feira, 19 de maio de 2014



O ENXAME

Eu era uma menina arteira, dessas que fuçam em todo canto.
Procurava sempre estar mexendo em alguma coisa.
Foi num dia assim. Num desses dias em que bulia, bulia onde não devia.
Eu pegava o pedaço de pau e cutucava as pedras do alicerce.
Era um gesto distraído de quem nada procura. E tudo procura.
De repente começaram a sair muitas abelhas do buraquinho que eu fizera.
Elas vinham no meu rosto, nos meus cabelos. Eu tentava tirá-las do cabelo e elas se enroscavam mais e outras chegavam.
Elas foram me picando todinha. Entravam por dentro do vestido que era bem largo, subiam pelas pernas.
Eu gritava como uma louca e elas vinham mais e mais.
Foi assim que a minha mãe me encontrou: sendo atacada por um enxame de abelhas.
Ela me pegou no colo e saiu correndo.
Lembro que morávamos numa chácara e as pessoas vinham comprar fubá.
Naquela hora havia um senhor que viera comprar e recomendou que minha mãe passasse anil em meu corpo e fosse tirando os ferrões com uma pinça.
Ela fez isso e logo em seguida meu pai chamou o médico.
Há um espaço em branco. Foi quando fiquei largada na cama, mais morta que viva. Dizem que foram dias que fiquei neste estado.
Quando me recuperei meu pai comentou que foram as  “caçununga” que me picaram.
Caçununga quer dizer vespas.
Se fui atacada aos seis anos por um enxame de vespas e sobrevivi a isso é sinal de que tenho realmente o “couro duro”.
Lembro-me que uma tia minha comentou:
-  Esta é a primeira vez em que eu vejo a Sonia gorda na vida.
Isto porque fiquei muito inchada.
A verdade é que quase morri devido a estas picadas.
Outras vezes fui picada por abelhas, mas é que invadi o mundo delas. Eu ia fuçar onde não devia. Quem mexe com marimbondo sai picado.

sonia delsin 

Nenhum comentário:

Postar um comentário