segunda-feira, 19 de maio de 2014



A UM  PASSO  DO  DESCONHECIDO

Restam-me poucas horas...
Sinto que o manto negro da morte aos poucos me envolve.
Disseram-me, não me lembro quem foi que disse; ou será que li isto em algum livro? Ah! Foi isso mesmo, eu li, e dizia que a morte é uma fada branca, alvíssima.
Era mentira, agora eu sei; porque só vejo escuridão.
O sepulcro é negro, negra é a minha sorte.
O que me resta? Nada!
Eu vejo à minha frente desfilar milhares de rostos, todos eles me lembram alguma coisa.
As recordações; só elas me restaram. E como é doce recordar!
Quantas sensações, quantas decepções!
Como eu fui feliz e infeliz também!
Mas agora que não me resta mais nada, lamento tudo aquilo que deveria ter sido e não fui.
Tudo que deveria ter feito e não fiz e lamento ainda mais o que fiz e não deveria ter feito.
Como o tempo passou depressa!
Quantas coisas ficaram incompletas, quantos sonhos eu não realizei!
O tempo passou e eu não percebi. Parece-me que vivi tão pouco, mas sofri tanto.
Ah! eu errei em tudo. Eu não fiz nada e não me completei.
Será que nunca nos sentimos realizados? Completos?
E a felicidade onde está? Será que brinca de esconde-esconde conosco?
Meus cabelos branquearam, minha pele enrugou. Meu coração murchou.
Minhas mãos eram maravilhosas e já não têm beleza.
E agora, o que foi feito de mim?
Estou velha, abandonada. Não me sobrou nada.
As imagens se confundem, estou perdida no passado, a minha vida toda me volta agora que estou morrendo...
... Finalmente estou me encontrando frente a frente com meu “eu”.
Do que fugi sempre, senão de mim mesma?
Logo serei só um cadáver.
Será que alguém chorará por mim? Os sinos badalarão?
Já não espero nada de ninguém.
Só espero ir-me logo deste mundo, mesmo ignorando para onde vou.
A morte é uma aventura e eu já não tenho mais forças para me aventurar. Abandono-me simplesmente ao desconhecido...

... Nada me importa agora... Tudo me escapa...

sonia delsin

Nenhum comentário:

Postar um comentário