A UM PASSO
DO DESCONHECIDO
Restam-me
poucas horas...
Sinto que o
manto negro da morte aos poucos me envolve.
Disseram-me,
não me lembro quem foi que disse; ou será que li isto em algum livro? Ah! Foi
isso mesmo, eu li, e dizia que a morte é uma fada branca, alvíssima.
Era mentira,
agora eu sei; porque só vejo escuridão.
O sepulcro é
negro, negra é a minha sorte.
O que me
resta? Nada!
Eu vejo à
minha frente desfilar milhares de rostos, todos eles me lembram alguma coisa.
As
recordações; só elas me restaram. E como é doce recordar!
Quantas
sensações, quantas decepções!
Como eu fui
feliz e infeliz também!
Mas agora
que não me resta mais nada, lamento tudo aquilo que deveria ter sido e não fui.
Tudo que
deveria ter feito e não fiz e lamento ainda mais o que fiz e não deveria ter
feito.
Como o tempo
passou depressa!
Quantas
coisas ficaram incompletas, quantos sonhos eu não realizei!
O tempo
passou e eu não percebi. Parece-me que vivi tão pouco, mas sofri tanto.
Ah! eu errei
em tudo. Eu não fiz nada e não me completei.
Será que
nunca nos sentimos realizados? Completos?
E a
felicidade onde está? Será que brinca de esconde-esconde conosco?
Meus cabelos
branquearam, minha pele enrugou. Meu coração murchou.
Minhas mãos
eram maravilhosas e já não têm beleza.
E agora, o
que foi feito de mim?
Estou velha,
abandonada. Não me sobrou nada.
As imagens
se confundem, estou perdida no passado, a minha vida toda me volta agora que
estou morrendo...
...
Finalmente estou me encontrando frente a frente com meu “eu”.
Do que fugi
sempre, senão de mim mesma?
Logo serei
só um cadáver.
Será que
alguém chorará por mim? Os sinos badalarão?
Já não espero
nada de ninguém.
Só espero
ir-me logo deste mundo, mesmo ignorando para onde vou.
A morte é
uma aventura e eu já não tenho mais forças para me aventurar. Abandono-me
simplesmente ao desconhecido...
... Nada me
importa agora... Tudo me escapa...
sonia delsin

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