terça-feira, 20 de maio de 2014



TAPETE  FÚNEBRE

Olho a rua molhada.
As poças d’água nas calçadas.
Olho a chuva que cai.
O vento balança uma árvore coberta de flores roxas.
As flores caem lentamente.
O vento bate mais forte e o chão se cobre de roxo.
De pétalas roxas.
Parece um tapete. Um tapete fúnebre.
Porque o roxo sempre me lembra a morte.
Mais forte agora a enxurrada carrega as flores.
O tapete se desfaz.
A chuva aumenta, os trovões e os relâmpagos tornam-se assustadores.
A chuva cai e vai molhando tudo. Sinto-me completamente umedecida.
Chove dentro de mim um pranto leve, suave.
Talvez seja a melancolia de assistir a chuva cair. Ou talvez a nudez da árvore é que me espeta a sensibilidade.
Abro meus olhos parados, esquecidos. Olhos que olham ser ver.
Já não chove.
Um sol ardente brilha. A natureza logo se esquece que choveu.
Só eu estou aqui a lamentar pela árvore que perdeu suas flores.
Então me pergunto se as pétalas roxas foram formar outro tapete...

São Paulo, 16 de março de 1976

sonia delsin

Nenhum comentário:

Postar um comentário