terça-feira, 20 de maio de 2014



O CASO DO BULE

Cresci vendo a Tonha cozinhando naquele velho fogão a lenha. O bule estava sempre lá.
Era um bule feio. Nós achávamos ele feio, horroroso mesmo. Mas ela pensava assim. 
Ela tinha um jeito peculiar de pegá-lo. Ainda me recordo do café fumegante.
Mamãe comprou um novinho. Pensam que ela aceitou? Não aceitou não, porque era muito teimosa. Quando gostava de uma coisa ninguém conseguia fazê-la mudar de ideia. 
Repetia sempre que gostava mesmo era daquele bule amassado.
Meu irmão Marquinhos resolveu dar um sumiço nele e deixou-a maluquinha. 
Imagine que ela se recusou a fazer café enquanto o bule não aparecesse.
O mano também era teimoso e não queria dar o braço a torcer.
O resultado foi que ficamos sem tomar café por uns três dias. Mamãe nem se metia a fazer porque a velha a punha a correr da beira do fogão. 
Papai dizia que ficar sem café deixava-o com dor de cabeça. Eu por mim nem sentia falta. O leite era farto lá em casa.
No quarto dia Marquinhos despiu-se da arrogância costumeira e colocou o bule em cima do fogão. Bem escondidinho, lá no fundo.
Tonha quando viu que o bule tinha aparecido começou a beijá-lo como se fosse uma preciosidade.
Preparou-nos um café saboroso e tratou de tirar todos da cama.
O bule amassado durou tanto tempo, tanto tempo que até hoje o vejo lá na fazenda. Mas está num canto da dispensa.
A moça que substituiu Tonha (quando esta faleceu) nem quis saber daquela peça inútil.


sonia delsin

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