O CASO DO
BULE
Cresci vendo
a Tonha cozinhando naquele velho fogão a lenha. O bule estava sempre lá.
Era um bule
feio. Nós achávamos ele feio, horroroso mesmo. Mas ela pensava assim.
Ela tinha um
jeito peculiar de pegá-lo. Ainda me recordo do café fumegante.
Mamãe
comprou um novinho. Pensam que ela aceitou? Não aceitou não, porque era muito
teimosa. Quando gostava de uma coisa ninguém conseguia fazê-la mudar de
ideia.
Repetia
sempre que gostava mesmo era daquele bule amassado.
Meu irmão
Marquinhos resolveu dar um sumiço nele e deixou-a maluquinha.
Imagine que
ela se recusou a fazer café enquanto o bule não aparecesse.
O mano
também era teimoso e não queria dar o braço a torcer.
O resultado
foi que ficamos sem tomar café por uns três dias. Mamãe nem se metia a fazer
porque a velha a punha a correr da beira do fogão.
Papai dizia
que ficar sem café deixava-o com dor de cabeça. Eu por mim nem sentia falta. O
leite era farto lá em casa.
No quarto
dia Marquinhos despiu-se da arrogância costumeira e colocou o bule em cima do
fogão. Bem escondidinho, lá no fundo.
Tonha quando
viu que o bule tinha aparecido começou a beijá-lo como se fosse uma
preciosidade.
Preparou-nos
um café saboroso e tratou de tirar todos da cama.
O bule
amassado durou tanto tempo, tanto tempo que até hoje o vejo lá na fazenda. Mas
está num canto da dispensa.
A moça que
substituiu Tonha (quando esta faleceu) nem quis saber daquela peça inútil.
sonia delsin

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