segunda-feira, 19 de maio de 2014



PARADOXO

Seria tudo tão simples se eu fosse como qualquer outra mulher.
Qualquer uma que vivesse as coisas comuns do lar.
Que conversasse sobre filhos, mamadeiras, fraldas.
Sobre os problemas escolares dos guris.
Que gostasse de um bom papo com as vizinhas para falar da novela.
Do leiteiro que se atrasou, do bolo que assou.
Mas não é assim que eu sou!
Não gosto de falar de coisas assim.
Gostaria de falar de um livro que li.
Duma música que me emocionou.
Duma poesia que me tocou a alma.
Mas como falar dessas coisas?
Com quem posso conversar sobre arte, música, poesia?
Com qual amiga posso falar do que me vai lá no íntimo?
Se elas são tão diferentes de mim.
Não posso falar de uma receita nova de pudim.
Não posso, porque não é isso que está no meu pensamento.
Estou pensando em escrever esta crônica estranha.
Para poder falar um pouco do que sinto.

(Engraçado porque escrevi esta crônica há muitos anos. Na verdade foi quando meus filhos eram pequeninos – tantos acontecimentos – tanta coisa mudou – tenho hoje amigos que falam sobre arte, literatura, música, dança – todas as coisas que me atraem)

sonia delsin 

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