terça-feira, 20 de maio de 2014



A CHUVA E O BEIJA-FLOR

Só depois de termos tido uma estiagem de vários meses é que valorizamos essa dádiva dos céus.
Eu assistia aos primeiros pingos caindo sobre o meu jardim.
Totalmente agradecida e compenetrada quando avistei o lindo beija-flor se esponjando num galho da minha espirradeira florida.
Ele é meu hóspede.
Ele uma avezinha livre, pertence à natureza, mas frequenta assiduamente o meu pequeno jardim.
Pequeno colibri que ama a liberdade. Sua natureza seria selvagem, mas, talvez pela frequência aqui, se tornou dócil e não foge quando me aproximo.
Eu o chamo de meu beija-flor e já me acostumei com ele.
Como deve estar amando esta chuva leve!
Parece que ele está agradecendo a chuva. Parece... E eu agradeço ambos. A chuva é maravilhosa, necessária e meu colibrizinho traz alegria ao meu coração.


São Carlos, 30 de setembro de 1994

sonia delsin


BURGUÊS

Não vou generalizar porque toda regra tem uma exceção, mas quantos homens sentem nojo do próximo porque é pobre.
Cheira mal, passa fome e anda seminu.
Eles avançam nos sinais desrespeitando pedestres.
Porque seus carrões são luxuosos.
E o pedestre pode ser um  “trombadinha”.
Eles olham as pessoas com ar superior.
Desconfiam dos empregados.
Sentem alergia da pobreza.
Da miséria.
Eles julgam-se superiores. Muito superiores.
Porque tem os bolsos cheios, contas bancárias gordas.
Moram em mansões.
Têm carros, lanchas, iates, aviões.
Tem tudo o que o dinheiro possa comprar.
Materialmente são os maiorais.
São burgueses.

São Carlos, 13 de fevereiro de 1996

sonia delsin


QUEM ME DERA!

Quem me dera eu fosse capaz de contar tudo que sinto e de alguma forma passar para as pessoas as minhas experiências, frustrações e alegrias.
Queria contar de coisas sabidas, mas de tal forma descritas que fosse capaz de fazer o descrente crer.
O aflito tranquilizar-se, o infeliz sorrir de alegria, o pobre sentir-se rico por ter a vida a desfrutar.
Mas pobre de mim que nem sei como dizer a alguém:
-- Veja como é linda a vida!
-- Que imensidão existe! Não seja triste!
Encontrei Deus no lugar em que menos esperava encontrá-lo. Encontrei Deus no âmago do meu ser.
E queria dizer a todos.
-- Não procure Deus no céu, nos templos. Deus está tão próximo de você. Ele está no íntimo de cada ser.
-- Não se sinta só porque Deus jamais abandona seus seres. Mesmo quando eles nem de longe se lembram dele.
Ah! Se eu pudesse diria a todos que Deus nos ama tanto. Mas tanto que nos faz nascer livres para traçarmos o nosso próprio destino.
Nós mesmos é que temos que encontrar o caminho que nos leva até Ele.

São Carlos, 10 de março de 1994

sonia delsin


TAPETE  FÚNEBRE

Olho a rua molhada.
As poças d’água nas calçadas.
Olho a chuva que cai.
O vento balança uma árvore coberta de flores roxas.
As flores caem lentamente.
O vento bate mais forte e o chão se cobre de roxo.
De pétalas roxas.
Parece um tapete. Um tapete fúnebre.
Porque o roxo sempre me lembra a morte.
Mais forte agora a enxurrada carrega as flores.
O tapete se desfaz.
A chuva aumenta, os trovões e os relâmpagos tornam-se assustadores.
A chuva cai e vai molhando tudo. Sinto-me completamente umedecida.
Chove dentro de mim um pranto leve, suave.
Talvez seja a melancolia de assistir a chuva cair. Ou talvez a nudez da árvore é que me espeta a sensibilidade.
Abro meus olhos parados, esquecidos. Olhos que olham ser ver.
Já não chove.
Um sol ardente brilha. A natureza logo se esquece que choveu.
Só eu estou aqui a lamentar pela árvore que perdeu suas flores.
Então me pergunto se as pétalas roxas foram formar outro tapete...

São Paulo, 16 de março de 1976

sonia delsin


ODE A UMA CIDADE

Não nasci aqui, nem foi aqui que me criei.
Mas é aqui que os meus filhos estão crescendo.
Aprendi a amar cada rua, cada praça, cada árvore.
A saudade da minha terra, às vezes, era tanta que eu procurava me agarrar a esta para esquecer aquela.
E consegui aos poucos substituir nos meus pensamentos os fantasmas do passado pela realidade daqui.
E já começo a fazer desta a minha cidade.
Aprendi a amar a brisa leve e o vento forte que contrastam o nosso clima.
Aprendi a amar os transeuntes que passam.
São desconhecidos em sua maior parte. São anônimos.
Mas são seres que compartilham do mesmo ar, da mesma chuva, do mesmo luar.
Não podemos viver de saudades.
Precisamos amar o que nos rodeia e agradecer a Deus por tudo que temos.
São Carlos, agradeço a acolhida.

São Carlos, 30 de setembro de 1994

sonia delsin


OUTROS CARNAVAIS

São lembranças de outros tempos.
Estão adormecidas num coração que aprendeu a sofrer.
E num coração que já foi tão feliz.
Lembranças de um tempo em que a preocupação maior era o sonho.
Lembranças de um tempo em que não havia mais a possibilidade de sonhar.
Lembranças da esperança voltando como Fênix voltando das cinzas.
Lembranças de uma linda história de amor.
Lembranças de um dia que foi o mais feliz.
E outros tão igualmente felizes.
Os momentos morreram no ontem, anteontem, no tempo...
...mas voltam a qualquer instante.
Basta querer trazê-los de volta, que eles voltam.
E basta querer esquecê-los que eles se vão.
Eles vão e voltam.
Mas já não conseguem ser reais, já não conseguem nos fazer sofrer.
E as lembranças boas têm o dom de nos proporcionar paz.
São lembranças novas e antigas.
São de outros tempos, outros carnavais...

São Carlos, 22 de janeiro de 1995

sonia delsin


RECORDANDO

Ainda consigo sentir o perfume das jabuticabeiras floridas.
Aquele cheiro de mato da minha terra jamais deixou de estar impregnado em meu ser.
Consigo ainda ouvir o barulho do córrego, o vento nos bambuzais...
Quanto tempo faz que eu corria por aquelas terras feito bicho livre.
Sem medo da vida. Querendo tanto ser feliz.
Vivia sonhando com outras terras, outra vida.
Fecho os olhos e vejo a casa simples, o paiol, a bica d’água. O moinho.
Quantos pequenos detalhes que teimam em permanecer intactos na memória.
Moram no passado. Contam a minha história.
O melhor da minha vida ficou lá, na chácara. Minha infância tão pura e doce.
Hoje, quando revejo aquele recanto onde nasci e vivi minha infância, não consigo encontrar nada do que me ficou na lembrança.
Parece outra terra.
É triste.
Nela já não correm crianças. Já não há uma mulher que trabalha cantarolando. Não há um homem assobiando a música “Silêncio”. Não há uma velhinha tossindo sem parar.
O moinho está silencioso, esquecido. Em ruínas. A velha roda enferrujada.
Já não existe o jardim florido, nem as cabras, nem a bica...
Agora aquela terra conta outra história e eu não faço parte dela.
A minha ficou guardada como a recordação mais terna que alguém pode ter.

São Carlos, 11 de agosto de 1995


sonia delsin